Mundo
Polícia francesa acusada de ferir alunos como se fosse uma guerra
Entre os casos, há relatos de quatro jovens que terão sido "mutilados" por engenhos explosivos e seis que sofreram "ferimentos graves". Para além de outras queixas que envolvem agressões físicas, insultos ou alegados abusos sexuais.
Pela quarta semana a viver o maior movimento de protesto juvenil das últimas décadas, França olha para o número sem precedentes de jovens menores detidos.
Durante este período, centenas de escolas secundárias de todo o país foram bloqueadas por alunos que exigem a substituição de professores ausentes e a renovação de instalações em mau estado. Organizações de defesa de Direitos Humanos e advogados questionam o governo e acusam a polícia de violência extrema.
Quatro jovens terão sido “mutilados” por engenhos explosivos e alguns advogados relatam outras acusações.
Adolescentes afirmaram ter sido agredidos, humilhados ou sofrido abusos verbais durante as detenções.
Para mais de mil destes jovens não foram apresentadas acusações formais. Outros 2.190 enfrentam processos judiciais e quase dois mil receberam uma medida alternativa (participação num curso de cidadania) sem que o caso chegasse a julgamento ou resultasse numa condenação.
A presidente da Liga Francesa de Direitos Humanos sublinha que é preocupante que apenas uma minoria dos casos que envolvem menores chegue a um juiz.
Até porque levanta preocupações de que as detenções possam ser infundadas. “Há um número recorde de detenções... Frequentemente, os dossiês jurídicos estão vazios. Na realidade, trata-se mais de impedir que as pessoas se manifestem. Acredito que há uma intenção de agir com rigor para tentar dissuadir as pessoas e assustá-las”, acredita Nathalie Tehio.
Opinião idêntica tem um dos dirigentes da Associação de Advogados Criminalistas de França.
Romain Boulet afirma que “os advogados criminalistas estão preocupados e alertam para o possível uso indevido dos poderes policiais com o objetivo de dissuadir os cidadãos menores de 18 anos de participarem em manifestações”.
Casos de mutilaçãoEvan tem 15 anos e é aluno do curso de marcenaria de uma escola técnica. A explosão de uma granada lançada pela polícia arrancou-lhe a mão esquerda. Aconteceu durante um protesto estudantil em Lens, no norte de França, no dia 5 de outubro. De acordo com o advogado de defesa “os seus ferimentos fazem lembrar lesões de guerra”.
O jovem tinha ido à escola para assistir às aulas e deparou-se com um protesto em curso. O advogado de defesa assegura que Evan não participou em atos de violência e desmentiu a alegação de que o jovem teria recolhido a granada do chão. O estudante de 15 anos continua hospitalizado “numa situação muito grave” e a família apresentou uma queixa-crime contra a polícia.
Um outro adolescente, Eden, de 14 anos sofreu ferimentos graves na face, incluindo duas fraturas no maxilar, a perda dos dentes inferiores e a quebra de todos os dentes superiores. Ele estava nas imediações de um protesto escolar em Saint-Ouen-l’Aumône, a noroeste de Paris e, alegadamente, foi atingido por um disparo de um lança-granadas. A advogada de defesa assegura que o disparo foi feito a curta distância (1,5 metros). “Trata-se, na prática, de armamento de guerra”, declarou Elsa Marcel.
Os pais do jovem contam que ele foi à escola, mas, como estava bloqueada, decidiu regressar a casa.
As imagens de vídeo mostram o jovem perante três polícias da polícia de choque.
Um dos agentes lança um golpe com um bastão na sua direção e Eden reagiu com um pontapé contra os polícias. É neste momento que é disparada uma granada. Um polícia foi afastado das suas funções e está sob investigação oficial.
A família de Eden apresentou queixa por tentativa de homicídio.
Já esta semana, um polícia da cidade de Tours, no oeste do país, foi acusado de agressão agravada. Isto depois de Maël, um estudante de 16 anos de uma escola de ensino profissional, ter perdido a visão de um dos olhos.
O estudante foi alegadamente atingido por um disparo de um lançador de projéteis de borracha. O polícia nega as acusações.
O advogado da família garante que Maël não esteve envolvido em nenhum confronto violento com a polícia, tendo apenas participado num protesto estudantil.